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Edifício construído em 1896, projetado pelo arquiteto Besnard, especialmente para a função de atelier de artista. Situado nas colinas de Montmartre, na rue des Abbesses, onde ilustres moradores viveram, como Theo e o seu irmão Van Gogh. Toulouse Lautrec, Picasso, Modigliani, Van Dogen, Max Jacob e tantos outros que também nesta região viveram, deram ao quartier, a fama e o prestígio da "Cidade Luz", onde as pedras falam de arte.

Após incessante procura de um verdadeiro "atelier d'artiste" em 1991 o encontrei, e consegui adquiri-lo. A partir do pós-guerra estes atelieres, que são um símbolo de um tempo em Paris, tornaram-se cada vez mais raros no mercado imobiliário, pois deixaram a sua função original e passaram a ser a habitação de pessoas que buscavam um lugar especial para viver. Com alta janelas voltadas para a fachada norte onde a luz é ideal, por ser constante, grandes espaços com volumes de seis metros de pé direito se intercalam por mezzaninos.

No 2º e 3ª andar onde trabalho, tenho os meus cavaletes, tintas, livros telas e um rádio que jamais é desligado, mesmo quando saio.Muitas pessoas acendem velas ou incenso, eu uso a música para purificar. Lá pintei tantos quadros, para tantas exposições, entre eles a coleção

Copacabana, inspirado na poesia e na música de seus anos dourados, especialmente para as comemorações de seu Centenário em 1992. Esta exposição foi mostrada nas principais capitais brasileiras e ainda em Paris, Nova York e Miami. Moro nos 4º, 5º e 6º andares do edifício. No último andar, por isso não jogo pedra no telhado do vizinho, o teto é de vidro. De lá se vêem os telhados da velha Montmartre, com sol, chuva ou neve, é sempre um prazer se olhar.

Da janela grito ao Mr. Frédéric, do restaurante em frente "La Mascotte" que me traga as ostras, "Fine Claire nº3", que o champagne já está no gelo. Lá embaixo a rua é viva e musical. Com som próprio, orquestrada com os gritos dos comerciante anunciando suas ofertas, a conversa animada nos bistrôs, o choro de acordeons e a melodia dos "chansonniers". Por entre bancas de frutas, legumes, queijos, flores e peixes seus moradores circulam com a baguete debaixo do braço e na sacola o bom vinho.

Numa esquina, algum pintor com seu cavalete registra o "Village Lepic-Abbesses" para qualquer dia ser visto em algum museuo, o retrato da continuação deste tempo, que é assim há cem anos, pois muitas vezes olho no calendário para ter certeza do ano em que estou.

Quando compro o sagrado pão nosso de cada dia, a jovem padeira, gentil me cumprimenta: "bonjour monsieur le peintre", como certamente fazia sua avó para algum pintor do bairro na sua época. Feliz, sinto que juntos estamos apenas cumprindo a bela tarefa de dar continuidade à história da vida.




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